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A Venda de Inocentes

Ransés Stratico segunda-feira, 11 de junho de 2018
Gostaria de te alarmar sobre a desnecessidade em ler minha história; afinal, o que poderia adicionar à sua vida a tediosa narrativa de um Salubri, ou uma Abominação Demoníaca?

_ Minha maldição começa muito antes de eu ter discernimento para compreender onde eu estava me metendo, como se eu tivesse alguma opção ou pudesse opinar quanto ao meu futuro.
_ Na época, eu era inocente e trazia comigo um amor incondicional por uma pequena garota de cabelos tão negros quanto os meus e olhos igualmente castanhos, coisas pequenas que nos tornava semelhantes e incrivelmente familiar.
_ Sangue? Seria algo muito complexo para realmente importar para nós dois; afinal, quem seria mais ideal para ser chamada de irmã se não uma pessoa que estava passando pelo mesmo mal que eu me assolava? Várias pessoas passavam por nós e nos observavam, nos encaravam e, em alguns casos chegavam a nos tocar, verificando nossas mãos, traços e força, o que não era tão desenvolvidos devido à baixa idade e também a precária alimentação que nos era fornecida.
_ Tudo o que me lembro de meus pais é tão perturbador que talvez fosse melhor se eu pudesse esquecer, mas não conseguiria, já que é a única coisa que me mantém ligado àquelas pessoas que até então me deram tanto carinho. A doença que os enterrou não é um tema que pretendo prolongar e deixar a história ainda mais trágica.
_ Este cenário abusivo e incômodo me acompanhou por longos e mentalmente exaustivos dois anos, até que um casal de uma erudição e postura incomum. Nunca vi uma aura tão puramente bondosa como daquela dupla excêntrica.
_ A mulher, em um elegante vestido azul claro, mas não algo extravagante como estava acostumado a ver nas donzelas que passavam por nós, uma maquiagem quase inexistente, o que deixava à mostra as suas linhas angelicais. Enquanto o homem, corpulento e espaçoso, parecia um caçador, se não pelas vestes igualmente refinado. Panos que eu nunca poderia sentir em minha pele naquela situação.
_ A primeira e única característica em todas as crianças que ela se deu ao trabalho de verificar foram os olhos, com um toque gentil nos pequenos rostos com sua mão macia e um olhar profundo, quase invasivo, que parecia nos penetrar o mais fundo da alma, como se pudesse entender todos nossos sentimentos e, de alguma forma, verificar nosso futuro.
_ Seu rosto entristeceu ao tocar o rosto de minha irmã, como se nem precisasse olhar em seu rosto para saber o que ela havia passado, algo que nem mesmo a mim havia confessado e, pela primeira vez, vi lágrimas no rosto da menina, que se mostrava muito forte e me consolava nas minhas noites de terríveis pesadelos.
- Perdoe-me. - Disse, entrando na frente da minha irmã sentindo que, pela primeira vez, era eu quem deveria intervir por ela. Não tinha muita educação acadêmica, mas fui instruído o suficiente, para saber que a má educação com os clientes poderia resultar em alguns castigos e algumas chibatadas que até então não havia feito por merecer. - Não quero ser rude com a senhorita, mas...
- Não se preocupe, pequenino. - A voz, que não havia pronunciado palavra alguma desde a sua chegada me acalmou e me fez recuar, não por medo, mas por respeito; não pelo homem com gordura excessiva, sobressaindo de sua camisa com uma curta vara em sua mão para me castigar, o qual eu não tinha visto até o gesto e o olhar intimidador da jovem, ates de voltar novamente com os olhos caridosos para mim. - Não quero vos machucar, sou apenas uma mulher que não pode ter filhos, embora os deseje tão fundo em meu coração.
_ Meu coração bateu forte, embora entristecido com o que ela falara, pois ainda estava demasiado preocupado com minha irmã, mas acabei me prostrando ao seu lado, uma vez que ela parara de chorar e agora estava com uma semblante empático para com a mulher.
_ Com um sorriso resplandescente e acolhedor, ela olhou para o homem, que abaixou e colocou sua testa junto à testa de minha irmã e, mais uma vez, senti uma vontade repentina de intervir, mas fui paralisado pelos olhos da garota que agora me examinava com ternura e o ainda presente sorriso, que sessou com as palavras que soaram zombeteiras.
- Já temos um veredito, não é mesmo, Megalus? - Ela se virou e, então, voltou para a pequenina. - Você se chamará Giovanna, cujo nome significa 'A Graça de Deus', pois vocês é quem agraciará nossa vida com sua luz e radiância; enquanto você, que se mostrou fiel à sua irmã, devolvendo o recíproco amor e proteção, será chamado de Adrian, que para alguns significa Aquele que vem da água; enquanto, para mim, mostra algo mais antigo, um medo que traz em seu âmago, será 'aquele que é escuro'.
_ Como disse, eu era inocente e não tinha discernimento para compreender muitas coisas; e este nome era um deles. Mas isto é algo que não demorou para descobrir, mas que no momento estava confuso e me tomava a mente, enquanto observava ambos juntos ao meu, até então, dono negociando a compra dos, como costumávamos nos chamar as risadas quando não havia ninguém perto e podíamos rir, gados.
_ Como esperado, o vendedor cobrou bem mais do que cobraria de outras pessoas, pelo demasiado interesse de nossos novos 'pais'. Um adjetivo que cairia muito bem as bondosas pessoas que decidiram adotas as criaturas desnutridas.

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