Na vida, podemos encontrar várias casas onde nossos corações podem repousar em paz. Porém, nenhuma delas será 'completamente' perfeita, como aquela casa parecia para mim. Era como se tudo houvesse sido planejado para saciar nossa vontade, de minha irmã e minha própria.
_ Pela segunda vez, eu tinha uma casa e já não mais estava nas mãos do maldoso vendedor de animais abandonados. Se me dissesse que estou sendo dramático ou exagerado, não poderia lhe julgar como insensível; afinal, estas seriam as palavras da inocência de quem não viveu no terror daquela época em que a ganância por detrás do falso pretexto de manter um prato de comida à sua mesa era visível.
_ Andamos lentamente pela rua, acompanhando os sorridentes pais, que pareciam estar mais satisfeitos do que poderia esperar; principalmente quando nos olhavam com seus rostos acolhedores.
_ Por vezes, falavam de seu desejo mais profundo de que a casa onde moravam nos agradasse, como se pudesse ser pior do que compartilhar um porão com ratos e crianças famintas que brigavam como gladiadores para roubar comida dos menores; o que por vezes acabava em fatalidade.
_ Tudo o que percorria minha mente neste momento, era uma questão, cuja resposta não estava ao meu alcance. Mas, ao olhar o rosto tímido de minha irmã, que camuflava uma gratidão que somente eu conseguiria ver - eu e, talvez, a senhorita -, consegui tomar coragem para me permitir deixar escapar em voz alta, apenas um pouco mais que um sussurro.
- Dentre todas as crianças, não éramos os mais fortes, nem os de melhor aparência e, muito menos, os melhor dotados de inteligência; então, quais os critérios que usaram para nos selecionar dentre os outros?
- Fala como tivéssemos comprado novos animais de estimação. - Ela sorriu e, mais uma vez, soou como se achasse graça, embora estivesse claro em meu tom de voz, que eu não estava apenas brincando. - Eu não os 'comprei', como está pensando. Não joguei dinheiro fora em dois pequenos e inofensivos cachorros, que me fariam companhia em minha solidão. Eu vi algo nos olhos de vocês, além da coragem para enfrentar qualquer um sem pensar nas consequências para proteger o outro, algo além das características de um desportista ou de um modelo de estátuas. Isto seria tratar como banalidade o que realmente importa. O que eu vi foi algo além do que vocês mesmos poderiam ver dentro de si, mas que poderão descobrir por si mesmos em breve, meu pequeno curioso.
_ Diferente de como soaria das bocas desdenhosas de outras pessoas, a palavra 'curioso' saiu de forma doce e orgulhoso e me fez acreditar ser um elogio e me calou em rubor vergonhoso acompanhado de um sentimento acolhedor vindo do olhar gentil dela, o que me fez notar, pela primeira vez, uma cicatriz, quase uma tatuagem, em sua testa.
_ Nossa primeira parada foi em uma loja de mantimentos, onde fomos tratados com compreensível arrogância, pois não bastaria mais que uma olhada para reparar em nossas vestes encardidas e cabelos desgranhentos.
- Adrian, meu filho, por favor, não se acanhe, pegue os doces que tem vontade. - Pulei de susto ao ouvir estas palavras; pois esperava algo como 'Espere lá fora' ou 'Não mexa em nada' - Oras, vamos, não queremos perder o dia todo, não é mesmo?
_ Nosso 'pai' agora puxava Giovanna com força, mas delicadeza, colocando-a sobre seus ombros, fazendo-a rir em gargalhadas sinceras. Não pareciam ter nos conhecidos naquele momento e os favorito de cada um já estava pré-estabelecido.
_ Esta foi a primeira vez que me lembro de realmente sentir uma afeição familiar por aquelas pessoas, até então estranhas e me encontrei perdido em pensamentos de um futuro promissor. Meu corpo estremeceu com um toque quente e só descobri o motivo quando pude voltar do transe e notar um forte abraço que me mantinha agora com os pés no chão.
- Não se preocupe com nada por ora. - O cheiro forte de suor que saía de nossos corpos não pareceu incomodar ao casal. - Seu único dever é sobre o que levar para casa.
_ Percorri as prateleiras cabisbaixo, perseguido pelos olhares abismados pelos presentes, desde o dono aos clientes fofoqueiros, mas tratei de pegar algumas das coisas que nunca comi, mas vira as outras crianças comendo com satisfação. Minha parte se resumia a alguns biscoitos caseiros e jujubas; enquanto a de minha irmã ela mal poderia carregar, já que quem se encarregou de pegar foi o brutamontes, que apontava e sorria para cima, esperando o sinal afirmativo, como se fosse uma ordem, respondendo com 'sim, senhorita'.
_ A hora de pagar foi a mai difícil para mim, coloquei o punhado de mercadoria que me foi encabido de escolher e o tinha feito a dedo, para não parecer exigente ou abusivo da liberdade, ainda mais na presença de toda atenção que isto estava trazendo para nós, o que não parecia estar chateando a Giovanna. Talvez por ter seu protetor tão próximo dela, como um cavalo imponente de guerra a carregando para batalha sem pestanejar; pronto para defendê-la.
- O que?! Tudo isto para estes dois? - Perguntou o dono inescrupuloso da venda, encarando com visível nojo de quem já nos vira na venda de crianças capturadas.
Desta vez, pela primeira vez, ouvi uma frase dolorosamente séria da montaria corpulenta.
- O que compramos ou para quem não faz diferença a você, uma vez que dinheiro esteja... - mas foi interrompido com uma mão sobreposta em sua cabeça, que o acalmou e o fez se recompor.
- Estes dois, como o senhor fala, não são menos importantes para o senhor. - Soou a suave voz por sua vez. - Afinal de contas, foram eles quem pagaram sua comida do mês; e não as carentes famílias de sua redondeza que vem pelo mais barato e comum. Não gostaria de ser rude; então, por favor, não o faça por merecer.
_ Estas palavras marcaram o homem ainda mais profundo, na alma. Era quase uma dor física que ele não poderia conter se não pela amargura de sua vergonha atual diante dos olhares zombadores dos presentes.
_ Eu não tive vontade de rir, estava igualmente envergonhado por fazer parte daquele alvoroço e ser a causa de toda a confusão. Tinha medo que tudo fosse um equívoco e que voltássemos para o nosso comerciante, nada além de uma peça pregada para deleite de todos.
_ Assim como começou, a bagunça cessou; tão repentino quanto as brincadeiras voltaram entre os dois logo atrás. Eu estava andando em passos apressados, tentando acompanhar os da guardiã, intercalando minha atenção entre meus pés e os dela, até que suas mãos deslizaram em meus cabelos e ela se abaixou para sussurrar em meu ouvido.
- Vamos apostar uma corrida? - Remexeu os olhos, indicando os dois atrás, seguida de risinhos baixos do gigante, que se apressou e correu na frente. - O primeiro a chegar é um bobão.
_ Ele parou e Giovanna teria caído, se não fosse ele segurá-la no colo, olhando com uma cara desgostosa para trás como se tivesse ouvido a segunda parte da frase, o que não seria possível pela distância, enquanto nós dois ríamos em gargalhadas. E assim, continuaram as brincadeiras por todo o caminho da casa.
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